Como trouxemos em artigo recente no blog da RealtyCorp, intitulado Demissões em massa nas Big Techs: risco ou oportunidade para o setor imobiliário?, o Brasil (e o mundo) parecem viver uma crise trabalhista no setor de tecnologia.
A exemplo disso, as Big Techs inundaram os noticiários ao cortar mais de 62 mil postos de trabalho. Esse movimento de demissão em massa assustou muita gente.
E a preocupação para a economia do Brasil permanece diante de novas demissões. No início deste mês foram 50 profissionais da AmbevTech, braço de tecnologia da gigante Ambev.
A empresa já chegou a ter 300 vagas em aberto e investiu bastante em recrutamento de profissionais qualificados. No entanto, no momento todas as vagas estão congeladas em seu portal oficial de vagas.
De acordo com informações de bastidores, a AmbevTech realizou reestruturações em suas unidades de negócios como Zé Delivery e Chopp Brahma Express no final de 2022. Com isso, alguns dos funcionários do Zé Delivery foram realocados na Ambev (e não mais na AmbevTech).
Outro susto foi vivido pelos profissionais do iFood, o maior aplicativo de delivery do Brasil, que também protagonizou a demissão de 355 funcionários no início de março (Uol Economia, 01/03). Esse número equivale a 6,5% do quadro atual — cerca de 5,1 mil profissionais. Em nota, o iFood disse que as demissões foram motivadas pelo “atual cenário econômico”.
Nos últimos meses, outras startups do setor de tecnologia também demitiram, como a Loft e a Buser. Segundo relataram, a situação econômica mundial reduziu o dinheiro das startups. Embora seja um setor que só crescia, agora enfrenta crise.
Mercado eleva estimativa do PIB de 2023 para 0,85%
Apesar do cenário de demissões ter gerado, inevitavelmente, preocupações econômicas, notícia recente do Valor Econômico (06/03) aponta que, apesar da leve decepção com o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no quarto trimestre e no ano de 2022 fechado, a mediana das projeções do mercado para o crescimento da economia brasileira em 2023 voltou a subir.
Embora marginalmente, de 0,84% para 0,85%, não deixa de ser algo bom.
Esse resultado aparece no Relatório Focus, do Banco Central (BC), divulgado nesta semana com estimativas coletadas até o fim da semana passada.
Para 2024, a mediana das expectativas para a expansão do PIB manteve-se em 1,50%. Para 2025, permaneceu em 1,80%.
Ainda segundo o texto, a economia brasileira cresceu 2,9% no ano passado, após encolher 0,2% no quarto trimestre, ante o terceiro, na série com ajuste sazonal.
O resultado do trimestre veio ligeiramente pior do que a mediana das estimativas de 75 consultorias e bancos consultados pelo jornal, que apontava para recuo de 0,1%. Para o resultado anual, a mediana de 79 previsões indicava crescimento de 3%.
De acordo com a Folha de S.Paulo (02/03), as estimativas mais pessimistas estão associadas principalmente aos impactos defasados dos juros altos, que encarecem o crédito para famílias e empresas. A política monetária mais restritiva ficou mais evidente a partir da reta final do ano passado, já que o PIB encolheu 0,2% no quarto trimestre.
Foi o primeiro recuo após cinco trimestres no azul, segundo os dados divulgados no dia 2/03 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Vale lembrar que o PIB funciona como um termômetro da economia. Trata-se do indicador que demonstra se as pessoas, profissionais e empresas estão gastando mais ou menos, e se a eficiência do país está crescendo. Além disso, ainda serve para comparar o desenvolvimento econômico entre outros países.
A necessidade é a mãe da invenção
Como dissemos em conteúdos anteriores, é válido pensar que oportunidades surgem em momentos de crise, afinal, a necessidade é a mãe da invenção. Prova disso se configurou no mercado de trabalho quando a pandemia eclodiu e pegou a todos de surpresa.
As empresas e os profissionais se adaptaram a um ambiente remoto praticamente de um dia para o outro. E alguns sequer imaginavam experimentar isso de forma tão intensa. Apesar dos percalços, vimos o processo funcionar bem por muitos meses – em razão do confinamento social.
E após o retorno aos escritórios e ao novo ambiente de trabalho, estamos novamente nos reinventando e adaptando a novas configurações (de layout, jornada de trabalho, tecnologias disponíveis) e oportunidades.
Com isso, embora as demissões em massa sejam um quadro preocupante para os profissionais e para a economia do Brasil, para o setor imobiliário alguns questionamentos são válidos:
- Até que ponto isso impacta na região onde estas empresas estão localizadas?
- Onde boa parte dessas empresas estão instaladas?
- As empresas estão reduzindo seus espaços corporativos?
- Proprietários de imóveis de outras regiões podem se beneficiar, oferecendo imóveis com melhor custo-benefício?
- Empresas de outras áreas podem ser realocadas ou expandidas?
- Outras empresas podem usufruir desses espaços vagos para ampliar suas operações?
- Localizações outrora indisponíveis podem agora ser cenário de oportunidades?
- Como preço de aluguel e vacância podem ser afetados?
Tais perguntas estão no radar dos players imobiliários e das empresas. Embora o cenário peça atenção, boa parte das Big Techs ocupam as principais regiões de São Paulo – como Nova Faria Lima, Vila Olímpia, Berrini e arredores.
Neste momento de demissões e devoluções de parte dos espaços, pelo menos duas possibilidades podem se destacar:
- Devoluções de espaços em regiões com pouquíssima vacância e preço alto (e já faz um tempo que o mercado “sofre” com isso);
- Disponibilidade em outras regiões com valores competitivos.
Observe nas tabelas abaixo como as regiões primes de São Paulo performaram em alguns indicadores importantes nos últimos dois trimestres, em relação ao mercado de escritórios Corporate Classe A:



A Nova Faria Lima, por exemplo, segue com a taxa de vacância mais baixa de São Paulo, embora o preço médio de aluguel não tenha caído. A região segue quase sem disponibilidade de espaços.
A Vila Olímpia teve queda na taxa de vacância de um trimestre a outro e segue dentro do percentual considerado saudável para o mercado. Teve um resultado positivo de absorção líquida no 4T/2022, embora menor que o 3T/2022.
Por fim, a Berrini ainda apresenta uma taxa de vacância alta no 4T/2022, mas ela foi menor que o 3T/2022 apesar da absorção líquida ter sido maior, mais de 11 mil m² de crescimento.
O que se pode avaliar é que Vila Olímpia e Berrini, vizinhas da Nova Faria Lima, tendem a entrar no radar de novas oportunidades de locação e com isso, movimentar o mercado imobiliário corporativo. Resiliência o setor já demonstrou ter em vários momentos da história.
Na outra ponta, se o cenário econômico demonstrar melhora nos próximos meses, vale lembrar que a correlação entre o comportamento da taxa de evolução do PIB (com projeção de melhoria) e a absorção líquida de escritórios é real. Falamos sobre isso no último RealtyCorp Analytics.
Portanto, se o PIB continuar crescendo neste ano, devemos ter também um cenário de crescimento da taxa de ocupação dos escritórios em 2023, embora menor que 2021 e 2022. Estamos torcendo por esse aquecimento, tanto para a volta dos profissionais ao mercado de trabalho quanto para o real crescimento da economia.
Para conferir o RealtyCorp Analytics completo do 1T/2023 e saber mais sobre o setor de escritórios, clique aqui.
Texto escrito por: Marcos Alves, Sócio-Diretor da RealtyCorp.

Marcos Alves é sócio fundador da RealtyCorp e atualmente lidera as áreas de gestão estratégica, operacional e de marketing da empresa, como Diretor de Operações e Marketing. Possui 22 anos de experiência no mercado imobiliário corporativo, período em que desenvolveu e participou de diversos negócios e projetos relacionados à desmobilização de carteiras, investimentos imobiliários, incorporações, gestão de contratos e representação corporativa. Nos últimos anos tem se especializado em analisar o comportamento do mercado de escritórios nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e o mercado de galpões industriais e logísticos. Além de assumir a gestão estratégica de Marketing da RealtyCorp. Iniciou sua carreira imobiliária em 2000 na CBRE, em 2004 participou ativamente da fundação da Ocupantes, atuando como sócio até 2013 e em 2014 fundou a RealtyCorp. Analista de Sistemas, com MBA USP em Real Estate. Ele também é Membro da Royal Institution of Chartered Surveyors (RICS) – MRICS e fala Português, Inglês e Espanhol.Outro destaque está ligado ao seu grande envolvimento em projetos sociais e trabalho voluntário na Comunidade Cristã da Zona Sul de São Paulo, onde participa ativamente nas horas vagas.

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